A Pronúncia do Tetragrama segundo a gramática hebraica: Uma análise gramatical profunda dos nomes teofóricos e padrões fonéticos

Resumo: Este artigo apresenta uma análise abrangente da possível pronúncia do Tetragrama (יהוה) com base em regras gramaticais e fonológicas da língua hebraica. Evitando posições baseadas apenas em tradições religiosas ou dogmas litúrgicos, o estudo busca evidências gramaticais presentes em nomes teofóricos e em obras de eruditos clássicos como Gesenius, Joüon-Muraoka, e John Se’ar Uramaide. O objetivo é demonstrar como a forma “Yehová” se alinha de modo consistente com os padrões morfológicos do hebraico bíblico.


1. Introdução A pronúncia do Nome Divino representado pelas quatro consoantes hebraicas (יהוה), conhecido como Tetragrama, é um tema central tanto em teologia quanto em linguística bíblica. Com a destruição do Templo e o exílio, muitos judeus passaram a evitar a pronúncia do Nome, substituindo-o por Adonai (Senhor) ou HaShem (O Nome). No entanto, dentro da abordagem linguística e gramatical, podemos reconstruir padrões que revelam a estrutura fonética mais provável do Tetragrama. Este artigo defende, por via da gramática, que a forma “Yehová” é plausível e coerente com os dados bíblicos.


2. O Tetragrama: uma análise estrutural

O Tetragrama é composto por:

  • י (Yod) — geralmente corresponde ao som de “y” como em “yes” ou “i” como em “Israel”.
  • ה (He) — pode representar uma consoante aspirada ou, no final, servir como marcador de vogal longa (muitas vezes mudo).
  • ו (Vav) — tem usos variados: pode representar uma consoante “v” ou vogais como “o” (cholam malei) ou “u” (shuruk).
  • ה final — geralmente muda, mas fundamental como indicativo de terminação vocálica, especialmente em palavras com qamats.

Analisando esses elementos individualmente não produz uma pronúncia segura, mas quando aplicamos os padrões encontrados em nomes teofóricos, a estrutura torna-se mais clara.


3. O papel gramatical do He final como marcador de vogal

Autores como Gesenius e John Se’ar Uramaide esclarecem que o He final, especialmente após um qamats (ָ), atua como um marcador de vogal longa (matres lectionis). Isso não significa que a letra deve ser pronunciada, mas sim que ela está ali para indicar que a vogal anterior deve ser prolongada. Exemplos:

  • מַלְכָּה (malkáh) — “rainha”
  • תּוֹרָה (toráh) — “lei”
  • עָשָׂה (asáh) — “ele fez”

Assim, a terminação ָה tem som de “á”, que será essencial para entender nomes como Yehová.


4. Nomes teofóricos e o prefixo “Yeho”

Diversos nomes bíblicos contêm a forma reduzida de יהוה como prefixo ou sufixo. Os que contêm o prefixo “Yeho-” (יְהוֹ) indicam forte ligação com o Nome Divino. Exemplos:

Nome HebraicoTraduçãoSignificado
יְהוֹשָׁפָט (Yehoshafát)JeosafáYHWH julga
יְהוֹיָקִים (Yehoyaqim)JeoaquimYHWH levanta
יְהוֹנָתָן (Yehonatán)JônatasYHWH deu
יְהוֹיָדָע (Yehoyadá)JoiadaYHWH conhece

Esse padrão “Yeho-” é recorrente e segue a combinação fonética de:

  • יְ (Yod com sheva) → “Ye”
  • הוֹ (He com cholam) → “ho”

5. A terminação com Vav-Qamats-He (וָה)

Essa terminação aparece em nomes onde o Tetragrama está completo ou reduzido em posição final:

Nome HebraicoTransliteraçãoTradução
יְהוֹוָהYehováNome próprio de Deus
אֲבִיָּהAviyáhMeu pai é YHWH
עֲזַרְיָהAzaryáhYHWH ajuda
צִדְקִיָּהTsidkiyáhYHWH é justo

A terminação וָה normalmente produz som de “vá” ou “yáh”. Em todos os casos, o uso do qamats seguido de he final reforça a vogal longa “á”.


6. Evidência Egípcia do Nome Divino: o Templo de Soleb (1370 AEC)

O Tetragrama também foi encontrado em registros egípcios no templo de Soleb, no atual Sudão, datado de aproximadamente 1370 AEC. Durante o reinado do faraó Amenhotep III (Amenófis III), um templo foi construído com diversas referências a povos estrangeiros e seus deuses. Um grupo identificado como os Shasu de Yhw é mencionado. Esse é o registro mais antigo conhecido de YHWH fora da Bíblia.

Os hieróglifos egípcios usados ali seguem uma sequência fonética que corresponde a Y-H-W-Ah. Isso é evidenciado pelas seguintes transliterações:

A presença do aleph egípcio com som de “a” no final é significativa. Indica que a pronúncia do Nome não era “Yahweh”, mas algo como “Yehowah” ou “Yehová”, com terminação vocálica clara. Essa evidência está documentada no Dicionário de Hieróglifos Egípcios, página 120, que pode ser consultado para comparativo.


7. Os argumentos contra e a resposta gramatical

Alguns argumentam que “Yehová” é apenas uma mistura artificial dos consoantes de YHWH com as vogais de Adonai. Isso é parcialmente verdade nos manuscritos massoréticos tardios, mas diversos eruditos, como Nehemia Gordon, encontraram mais de 1.000 manuscritos com o Tetragrama vocalizado como Yehová, incluindo evidências entre os Karaítas e textos rabínicos antigos.

A gramática, contudo, não depende dessas inserções. Ela revela, independentemente da tradição, que a estrutura “Yehová” é coerente com:

  • o uso do prefixo “Yeho”
  • a fonologia do qamats he no final
  • o papel do vav como consoante “v”
  • registros arqueológicos egípcios compatíveis

8. Comparativo com outras vocalizações

Forma propostaBaseCríticas
Yehovágramatical, nomes teofóricos, inscrições egípciasacusada de usar vogais de “Adonai”
Yahwehhipótese acadêmica modernanão há nenhum nome com esse padrão
Yahuahreconstrução moderna alternativaignora padrões nominais e vocálicos do hebraico clássico

9. Conclusão

A partir de uma análise exclusivamente gramatical:

  • O Tetragrama forma o padrão Ye-ho-vá.
  • A combinação de Yod, He, Vav com qamats e He final reforça essa estrutura.
  • Nomes teofóricos e registros externos (como os egípcios) sustentam essa pronúncia.

Portanto, “Yehová” é uma pronúncia plausível, fundamentada na gramática hebraica, exemplificada em nomes bíblicos, e atestada também em registros estrangeiros antigos. A gramática, portanto, não apenas permite essa leitura — ela a reforça.


Referências:

  • Gesenius’ Hebrew Grammar
  • Joüon-Muraoka, A Grammar of Biblical Hebrew
  • John Se’ar Uramaide, Hebrew Morphology and Divine Names
  • Nehemia Gordon, Shattering the Conspiracy of Silence
  • K.A. Kitchen, Ancient Orient and Old Testament
  • Inscrições de Shasu-Yhw nos templos egípcios (Soleb, 1370 AEC)
  • Dicionário de Hieróglifos Egípcios, p. 120
  • Estudos sobre matres lectionis, fonologia hebraica e nomes teofóricos no Tanakh

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