Resumo: Apesar do avanço acadêmico e do acesso à informação, muitos estudiosos e professores teólogos revelam uma incapacidade surpreendente de interpretar corretamente textos bíblicos simples quando confrontados com os originais em grego ou hebraico. Esta dissertação analisa as razões filosóficas, psicológicas e linguísticas pelas quais a erudição aparente pode obscurecer a compreensão real.
Introdução: É comum ouvirmos preletores e professores declarando interpretações enfáticas de textos bíblicos como Filipenses 2:6 ou Colossenses 1:15. No entanto, quando se examina o grego original, é evidente que tais conclusões são derivadas mais de tradição dogmática do que de análise gramatical objetiva. Como isso é possível, especialmente vindo de pessoas consideradas “mestres”? Esta dissertação busca responder a essa pergunta com uma abordagem multidisciplinar.
1. O condicionamento epistemológico: Grande parte dos professores e teólogos são treinados dentro de sistemas teológicos fechados, onde o que se aprende é uma interpretação doutrinária pré-formatada. A interpretação do texto original passa a ser condicionada a esse sistema, e não à luz da gramática e do contexto. O viés de confirmação torna-se uma ferramenta inconsciente: eles não interpretam para descobrir, mas para sustentar o que já acreditam.
Esse fenômeno é reforçado por estruturas institucionais que priorizam a ortodoxia sobre a investigação, tornando qualquer leitura fora do padrão um risco à estabilidade da estrutura religiosa. A teologia torna-se, então, não mais um exercício de busca pela verdade, mas um mecanismo de preservação doutrinária.
2. A erudição aparente sem fundamento linguístico: A maioria dos professores de teologia não possui fluência real em grego koiné ou hebraico bíblico. Dominam obras sistemáticas, mas não os fundamentos da exegese textual. Com isso, reproduzem interpretações de terceiros sem questionamento técnico. Isso os torna vulneráveis a equívocos graves, pois uma “autoridade” que não examina o original baseia-se mais em retórica do que em evidência.
É comum que se utilize o prestígio acadêmico para impor interpretações que não resistiriam a uma análise morfológica ou sintática rigorosa. Termos como “primogênito” (πρωτότοκος) e “imagem” (εἰκών) são convertidos, por meio de argumentações subjetivas, em “criador soberano”, quando o texto original não permite essa elasticidade sem violência semântica.
3. A resistência cognitiva ao colapso da identidade intelectual: Admitir um erro de interpretação pode significar muito mais do que rever um texto: pode abalar toda uma identidade teológica. Muitos teólogos constroem sua reputação sobre doutrinas específicas, e admitir um erro textual pode representar, para eles, um “colapso de identidade”. Michel Foucault, ao tratar da relação entre saber e poder, nos mostra como o conhecimento pode ser instrumentalizado para manter status, e não necessariamente para revelar a verdade.
O ser humano tende naturalmente a evitar dissonância cognitiva. Quando confrontado com evidências que contradizem suas crenças centrais, o instinto é negar, reinterpretar ou atacar a fonte. Assim, quanto mais alguém está emocional ou institucionalmente investido numa doutrina, mais difícil é para essa pessoa aceitar uma correção honesta baseada em gramática ou contexto.
4. O papel da tradição e da autoridade religiosa: Em muitos ambientes religiosos, a tradição eclesiástica é vista como mais segura do que a investigação textual. Isso cria uma cultura onde o questionamento é desestimulado e a submissão à interpretação “oficial” se torna uma virtude. Assim, mesmo os professores preferem não confrontar certos textos com honestidade gramatical, para não parecerem “hereges”.
A autoridade religiosa frequentemente se sobrepõe à evidência textual. Textos são explicados à luz da tradição, em vez de a tradição ser testada à luz dos textos. Esse processo inverte a hierarquia epistemológica e perpetua erros interpretativos que, com o tempo, se tornam dogmas inquestionáveis.
Conclusão: O verdadeiro erudito é aquele que está disposto a abandonar suas próprias pressuposições diante da evidência textual. Muitos “mestres” falham não por falta de inteligência, mas por falta de coragem epistemológica. Interpretar corretamente exige humildade, e isso é mais raro do que conhecimento. Como dizia Sócrates: “só sei que nada sei” — e é nesse reconhecimento que começa a verdadeira sabedoria.
É preciso resgatar a centralidade do texto, o rigor da linguagem original e a honestidade intelectual. Enquanto isso não for uma prioridade entre os que ensinam, o povo continuará sendo refém de discursos eloquentes, mas frágeis, e de tradições reverenciadas, mas gramaticalmente insustentáveis.
Referências:
- Foucault, Michel. A Arqueologia do Saber.
- Gadamer, Hans-Georg. Verdade e Método.
- Chomsky, Noam. Knowledge of Language: Its Nature, Origin, and Use.
- Strong, James. Strong’s Concordance of the Bible.
- BDAG Lexicon (Bauer, Danker, Arndt, Gingrich) para referência gramatical grega.
- Vine, W. E. Expository Dictionary of New Testament Words.
- Carson, D. A. Exegetical Fallacies.

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